Lentidão II

E se, de repente, o tempo se transformasse numa linha vertical contínua, e o teu olhar, contra o meu olhar, fosse hora-segundo ou segundo-hora, forma inversa do desejo, aqui, ali, o desejo aqui e ali, um riacho a correr, um riacho a correr parado, ou uma parede a abrir brechas, pequenas, uma parede a abrir brechas pequenas, a respiração lenta e pesada, o corpo louco de ti, e de mim, a soma de dois, a divisão de um, tudo o que há e não há, a pequena-grande loucura da felicidade.

E se, de repente, o tempo se transformasse na ausência de si mesmo, e o meu olhar, contra o teu olhar, fosse o teu olhar, contra o meu olhar, forma precisa do desejo, universo, árvore ao vento, seixo redondo, figura geométrica infinita, os corpos opacos, as almas translúcidas, o gesto, a leveza, o contrário do gesto e da leveza, os sinais, as linhas, os caminhos, a beatitude de não ter que os percorrer, a soma de dois, a divisão de um, tudo o que há e não há, o princípio, o fim.


2 comentários:

Happy and Bleeding disse...

that is beautiful :)

Andreia Ferreira disse...

:) :) :) Muito bonito! **